Joey FriendsVocê sabia que o Canadá é um país oficialmente bilíngue? É isso mesmo: no True North, os idiomas oficiais são inglês e francês. Porém, como a gente vai ver, o peso de cada língua varia muito dependendo da situação.

Senta que lá vem história

O multiculturalismo canadense tem raízes na formação do país. Muito antes dos europeus chegarem, já havia uma pluralidade de povos indígenas falando diferentes idiomas. Tudo mudou com a vinda dos navegantes britânicos e franceses a partir do século XV. Com a colonização, muitas das línguas faladas pelos integrantes das chamadas First Nations se perderam.

Em 1534, os franceses fundaram a colônia da Nova França (Nouvelle-France). Inclusive, o nome Canadá surgiu de sua região mais desenvolvida, que abrangia os distritos de Québec, Trois-Rivières e Montréal.

Entre os séculos XVII e XVIII, a presença francesa se intensificou, assim como as disputas com os britânicos. Muita treta depois, a assinatura do Ato do Québec em 1774 marcou o domínio britânico. Apesar disso, houve concessão de algumas garantias aos franceses, para evitar o apoio à Revolução Americana. Esse acordo permitiu, por exemplo, a aplicação do sistema legal francês na esfera civil e a prática do catolicismo. Mas esse não foi o fim dos conflitos entre anglo e franco-canadenses.

Uma herança que luta pra se manter viva

O poder limitado da população de origem francesa continuaria sendo contestado nos séculos seguintes. Um exemplo desse conflito foi a chamada Quiet Revolution ou Révolution tranquille no Québec, nos anos 1960. Foi nessa época que se fortaleceu o movimento separatista da província.

O período foi marcado por uma escalada de tensões e violência, que culminou na Crise de Outubro de 1970. Porém, essa também foi uma fase de intensa mudança sociocultural e política no Québec. Exemplos disso foram a derrubada do poder político da Igreja e um maior acesso de franco-canadenses a direitos.


Ainda hoje, os franco-canadenses lutam pra garantir representatividade no país. Aos descendentes dos primeiros franceses, se juntam ainda imigrantes de países francófonos como Camarões, Haiti, Argélia e Tunísia. Além dos québécois, há ainda diversos outros grupos francófonos no Canadá, como os franco-ontariens, franco-manitobains e os acadiens.

Segundo os dados do Censo 2016, 2% da população canadense não fala inglês nem francês e 18% é bilíngue. Além disso, 68% só fala inglês e 12%, apenas francês. Ou seja, é mais fácil encontrar quem fale apenas inglês do que alguém que fale só francês (12%).

Por que aprender francês?

Se só 30% da população canadense fala francês, será que vale a pena aprender o idioma? A resposta é sim e aí vão algumas razões:

1. Cultura geral

Aprendendo um novo idioma, você amplia seus conhecimentos. Assim, pode se comunicar com mais gente e entender conteúdos em outra língua.

2. Diferencial na carreira

Ter fluência nos dois idiomas oficiais do Canadá abre muitas portas. Você tem acesso a mais oportunidades de emprego, já que muitas empresas atendem clientes francófonos. Muitas vezes, os salários oferecidos pra candidatos bilíngues também são mais altos que pra candidatos que só falam um idioma.

Se sua intenção é ser funcionário público federal no Canadá, as chances de precisar falar inglês e francês são grandes. Segundo o Relatório Anual sobre Idiomas Oficiais, 43% das vagas entre 2017 e 2018 eram para candidatos bilíngues. À medida que o funcionário avança na carreira, ser bilíngue se torna ainda mais importante. Isso porque muitos cargos executivos exigem que a chefia seja capaz de se comunicar fluentemente nos dois idiomas.

3. Express Entry

Desde 2017, candidatos à residência permanente podem ganhar um super bônus na pontuação se forem bilíngues. Com isso, quem ficar com NCLC 7 ou mais em todas as competências da prova de francês leva 15 pontos extras se tiver ficado com CLB 4 ou menos em inglês ou 30 pontos extras se tiver ficado com CLB 5 ou mais em inglês. Isso sem contar os pontos que você leva pelo resultado das provas em si. Pra saber mais sobre as provas aceitas pela imigração canadense, clique aqui.

4. Cursos subsidiados pelo governo

Quem é residente permanente também pode ter direito a cursos de idiomas financiados pelo governo. Ou seja, chegando ao Canadá, você pode estudar inglês ou francês de graça (ou quase).

5. Seus filhos podem aprender francês desde pequenos

Mesmo nas escolas anglófonas do Canadá, todos os alunos também estudam francês como segunda língua. Além disso, algumas instituições oferecem programas de extensão ou imersão, com parte das aulas do ensino fundamental em francês.

Algumas cidades têm ainda a opção de escolas em que o primeiro idioma é o francês. Porém, nelas é importante que pelo menos um dos pais se comunique bem em francês, pra acompanhar reuniões e comunicados. De um jeito ou de outro, você também falar francês vai ajudar seu filhote a manter o idioma vivo ao longo dos anos.

6. Ampliação dos negócios

Se você pensa em abrir seu próprio negócio no Canadá, falar francês pode te ajudar e muito. Isso porque você ganha acesso a novos clientes e parceiros.

7. É mais fácil pra gente

Assim como o português, o francês é uma língua de origem latina. Com isso, muitas palavras e estruturas do francês se assemelham às nossas. Talvez isso não pareça verdade quando a gente ouve alguém falar francês no começo. Mas se você tentar ler um texto no idioma, vai notar que muita coisa parece familiar.

Isso faz com que seja muito mais fácil pra gente aprender francês que pros próprios canadenses anglófonos. A razão é que o inglês é uma língua germânica ocidental, com estrutura bem diferente do francês.

Quanto tempo eu preciso estudar pra ser fluente em francês?

É como diria o poeta: depende. Se você não tiver pressa ou der preferência a aulas em grupo, pode levar alguns anos até se sentir confiante. No entanto, se você se comprometer e fizer um plano de estudos bem focado, é possível avançar bem mais rápido. Isso inclui estudar todo dia e fazer exercícios pra se desenvolver em todas as competências: redação, conversação, escuta e leitura.

Charlie BrownPra aumentar ainda mais sua exposição ao idioma, é importante ainda buscar o máximo possível de imersão no francês. Algumas dicas são ler notícias, ouvir músicas, ver filmes, assinar canais no YouTube e alterar o idioma do celular. Busque também chats, grupos presenciais de conversação e outras formas de conhecer pessoas pra conversar em francês. No começo você vai sentir o próprio Charlie Brown ouvindo a professora, mas logo tudo começa a fazer sentido.

Províncias bilíngues e monolíngues

Na esfera federal, o governo deve prestar serviços e informações tanto em inglês quanto em francês. Também há programas e incentivos pra promover esse legado pelo país. Além disso, rótulos de produtos também devem estar nos dois idiomas.

A história muda um pouco quando passamos para o nível provincial, já que as províncias têm bastante autonomia. Apesar de New Brunswick e Manitoba reconhecerem igualdade do inglês e francês, o Québec é a única província majoritariamente francófona. Inclusive, o Québec se declara uma província monolíngue, assim como Alberta e Saskatchewan (mas no caso destas, apenas em inglês).

Na prática, no entanto, toda província tem alguma presença de anglófonos e francófonos. Aqui em Ottawa, por exemplo, é muito mais comum ouvir francês que inglês em alguns bairros, como Vanier e Orléans. Isso sem falar na nossa vizinha Gatineau (no Québec), que de tão colada é considerada parte da capital nacional.

Gatineau

O sotaque québecois e o franglais

Quem já fala francês pode se surpreender com os jeitos de falar canadenses. A variação predominante no país é o francês québecois, que é um pouco diferente do francês metropolitano (falado em Paris). Isso por causa tanto do sotaque quanto de algumas expressões particulares.

O francês canadense também pega um monte de palavras emprestadas do inglês. Assim, algumas palavras são usadas diretamente, como cute pra “fofo” (em vez de mignon). Ao mesmo tempo, outras levam à criação de neologismos, como rusher (do inglês to rush) pra “se apressar”. O francês que a gente ouve no trabalho e o falado por jornalistas se aproxima bem mais do parisiense, no entanto. Algumas expressões québecoises comuns são:

  • Chum: namorado ou amigo
  • Blonde: namorada
  • Déjeuner: café da manhã
  • Dîner: almoço
  • Souper: jantar
  • Tiguidou: ok/tudo certo
  • Pantoute: de jeito nenhum
  • Char: carro

Um outro fenômeno no Canadá é o uso do franglais ou Frenglish. Quê? A gente explica: é quando parte de uma frase é falada em francês e outra em inglês.

Franglais

Isso acontece com mais frequência quando a pessoa sente que uma expressão em outro idioma vai ser mais exata. Ou mesmo em cidades fortemente bilíngues, como Montréal e Ottawa. Eu sinceramente acho quase um superpoder e, sim, dá um nó na cabeça da gente. A boa notícia é que melhora muito com a prática e logo logo você se acostuma.

francês

O francês é um idioma delicioso de aprender e pode ser uma mão na roda pra quem vem pro Canadá. Então vamos lá? Ou melhor, como a gente diz em francês, on y va ?


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